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mil fontes - os tipos da literatura portuguesa

Cerro Maior

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A maior parte dos camponeses já havia feito as compras e enchera as vendas do largo. De quando em quando, atraídos pelas gargalhadas dos que estavam de fora, chegavam às portas.

O motivo do riso era a loucura mansa do aguadeiro, já bêbado, de fralda de camisa fora das calças, ajoelhado diante do burro.

O meu burro é um santo!

Cada domingo, a bebedeira trazia novos aspectos à doidice do Zé da Água. Perante as gargalhadas gerais, obrigava o burro a bater com as patas repetidas vezes no chão enquanto agitava ele os pés descalços, num compasso marcado.

Estavam a dançar o fandango. Por fim parou. Um sorriso alvar escorria-lhe do rosto e dos olhos aguadas e era, num momento, substituído por tal expressão de espanto que os olhos mortiços se lhe abriam atónitos.

Ganha-me o pão e ainda dança que nem um homem! Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo: É mais esperto que vocês todos juntos! Ajoelha de novo, põe as mãos e atira a voz para as alturas: Nosso Senhor mo guarde!...

 

Cerro Maior

Manuel da Fonseca – Editorial Caminho

 

Livro disponível para consulta no restaurante "Taberna do Gil" 

Rua Custódio Brás Pacheco

Vila Nova de Milfontes